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Uma esperança para as crianças para adoção
Três projetos brasileiros são finalistas em concurso na Guatemala sobre Inovação Social, organizado pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, Cepal e pela Fundação Kelogg; um dos nomeados é um programa de Goiânia que atende crianças que aguardam adoção.
Laura Kwiatkowski, da Rádio ONU na Guatemala*.
Quando o juiz da Infância e Juventude Maurício Porfirio Rosa visitou os abrigos de menores de Goiânia, em Goiás, ele notou que as crianças de mais de cinco anos de idade não tinham esperanças de serem adotadas.
Os albergues recebiam os menores que não podiam permanecer com suas famílias por causa de abusos e razões financeiras graves.
Goiânia tem uma lista de 550 casais que desejam se tornar pais adotivos, mas com condições. Querem recém-nascidos brancos e do sexo feminino.
"Quando eu visitava esses refúgios eu me comovia, me consternava ver que as crianças de mais de cinco anos não tinham sequer a expectativa de receber uma visita ou uma data comemorativa ou feriado. Isso me deixou transtornado e eu pensei que poderíamos criar um mecanismo para suprir essa deficiência, essa falha legal".
Anjo da Guarda
Esse mecanismo se denominou 'Anjo da Guarda', com três tipos de padrinhos, explica o juiz.
"Um é o que chamamos de padrinho provedor, o que quer pagar os gastos, a escola, as necessidades econômicas. Mas jamais aceitamos dinheiro para o projeto. O dinheiro tem que ser dado para a criança porque não queremos só isso. Queremos criar um vínculo afetivo".
O segundo tipo de padrinho é o provedor de serviços.
"Seria aquela manicure que quer fazer as unhas das meninas no abrigo, ou o cabeleireiro que quer cortar o cabelo, ou o médico que quer atender as crianças ou o enfermeiro. Enfim, qualquer um que queira fazer um serviço".
Padrinho Afetivo
O terceiro, segundo o juiz Rosa, é o padrinho afetivo, o que passa seu tempo com os menores nos fins de semana, Natal, Ano Novo.
"E o volume de adoções de menores de mais de 5 anos aumentou, porque aquela pessoa estabelece um vínculo, e na hora de devolver a criança dói o coração, e ela quer adotá-la".
O magistrado esclarece que nem toda relação afetiva acaba em adoção. É como o amor, ele diz, às vezes acaba em casamento, outras não. O juiz acredita que no Brasil existe um paradigma cultural que faz com que os casais queiram adotar um filho que se pareça com eles, mas é necessário acabar com isso.
"Eu pessoalmente defendo a tese de que paternidade e maternidade não vem de um fenômeno biológico", afirma o juiz Rosa, que sabe o que fala porque tem um filho que adotou quando o garoto tinha 5 anos. Quando menciona ele, o juiz se emociona.
Filhos
"Hoje eu posso dizer que não compreendo a vida sem ele. Me dá momentos de extrema alegria, de reflexão. Eu dou a ele o que tem direito de receber, comida, educação, mas ele me dá vida. Ele sofria de asma e eu fazia inalação nele à noite e, um dia, às quatro da manhã, os dois exaustos, ele me perguntou: papai, porque demorou tanto para me buscar? Eu começei a chorar, eu o abraçei e pensei que tantas outras crianças deviam estar dizendo isso nos abrigos".
O magistrado explica que o programa 'Anjo da Guarda' também diminui a violência que pode ser gerada pelo fato das crianças não serem criadas dentro de uma família em que há compreensão e carinho.
Rosa, que tem filhos biológicos além do adotivo, assegura que não existe diferença no amor que sente por todos eles.
O projeto 'Anjos da Guarda' foi um dos finalistas do concurso sobre Inovação Social, organizado pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, Cepal e pela Fundação Kelogg.
*Apresentação: Daniela Traldi, da Rádio ONU em Nova York.



