Porta-voz do Unicef vai a Mianmar e relata isolamento de crianças em Rakhine

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Marixie Mercado passou quase um mês no país; ela fala sobre 60 mil menores rohingya que estão "esquecidos"; milhares não recebem tratamento para desnutrição; abrigos estão perto de depósito de lixo; pessoas não conseguem viajar para obter ajuda médica.

Foto: Ocha/Anthony Burke

Leda Letra, da ONU News em Nova Iorque.

A porta-voz do Fundo das Nações Unidas para a Infância, Unicef, Marixie Mercado, acaba de retornar de uma viagem a Mianmar, onde ficou entre os dias 6 de dezembro e 3 de janeiro.

Em Genebra, ela relatou o que viu, em especial no estado de Rakhine. A porta-voz lembra que a onda de violência iniciada em agosto levou 655 mil pessoas, a maioria rohingya, a buscar refúgio em Bangladesh.

Abandono

Na parte central de Rakhine, Mercado destaca que 120 mil rohingya estão "abandonados" em acampamentos desde 2012 e mais de 200 mil estão em vilarejos sofrendo com restrições de movimento e falta de acesso a serviços básicos.

O Unicef não sabe qual é a situação real das crianças que estão no norte de Rakhine porque o acesso não é suficiente, mas Marixie Mercado confirma que o que se sabe é "profundamente perturbador".

Antes de agosto, a agência da ONU tratava 4,8 mil crianças com desnutrição severa, mas esses menores não estão mais recebendo tratamento. Centros de saúde estão sem funcionar ou foram destruídos.

Acampamentos

Segundo ela, é possível que pelo menos 100 crianças tenham sido separadas de suas famílias durante a violência e existe dificuldade para obter água potável e alimentos.

A porta-voz do Unicef pede atenção para 60 mil crianças rohingya "que estão praticamente esquecidas e isoladas em 23 acampamentos na zona central de Rakhine".

Segundo Marixie Mercado, as condições em alguns campos são lamentáveis, com "tendas próximas a depósitos de lixo e excrementos" e em um acampamento, o lago onde as pessoas buscam água "é separado do esgoto por uma parede de barro".

O Unicef continua pronto para trabalhar com o governo de Mianmar e o estado de Rakhine em prol de todas as crianças, independentemente de sua "etnia, religião, condição social ou circunstância". Mas para isso, a porta-voz explica ser essencial "acesso urgente, regular e ilimitado a Rakhine".

Sem escolas

As restrições fazem com que seja "extremamente difícil" para os rohingya deixarem os acampamentos para receber tratamento de saúde, já que uma autorização de viagem depende de uma justificativa oficial de um médico. Essa autorização também tem um custo, que a maioria não pode pagar.

A falta da liberdade de movimento também prejudica o acesso das crianças à educação. Marixie Mercado notou que nos acampamentos, as salas improvisadas não têm condições adequadas e os professores voluntários tem pouco treinamento formal.

Segundo a porta-voz do Unicef, nenhum muçulmano consegue frequentar a universidade no estado de Rakhine desde 2012. Por isso, ela ressalta que "as crianças rohingya precisam desesperadamente de acesso à educação para que tenham um futuro melhor".

A representante defende uma solução política para as crianças rohingya, ligadas à questão da identidade e da cidadania, mas principalmente, que sejam reconhecidas como crianças e tenham garantidos seus direitos à saúde, à educação e a oportunidades.

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