ONU deve liderar "aumento da diplomacia" para paz, diz Guterres

Secretário-geral da ONU, António Guterres.

Em Nova Iorque, já começaram as preparações para os próximos debates de líderes internacionais da Assembleia Geral, que deve reunir chefes de Estado e Governo de ministros de Estado de todos os países-membros da ONU.

O anfitrião deste evento, pela primeira vez, o secretário-geral António Guterres conversou com a ONU News e falou sobre o papel da Organização, de 72 anos, e de um mundo que está enfrentando cada vez mais desafios.

Guterres, que foi primeiro-ministro de Portugal de 1995 a 2002, e alto comissário da ONU para Refugiados, assumiu a liderança das Nações Unidas em 1º de janeiro deste ano.

Ele tem defendido, entre outros temas, para um aumento da diplomacia na resolução de assuntos globais. O chefe da ONU também quer maior adesão aos objetivos do Acordo de Paris sobre mudança climática, e um maior engajamento com os jovens de todo o mundo além de maior dedicação para assegurar a paridade de gêneros através do Sistema ONU.

Nesta entrevista, ele também discute como está a trabalhar com a comunidade internacional para fazer as partes envolvidas em conflitos entenderem que "ninguém sai ganhando" nas arrasadoras guerras de hoje em dia.

Guterres também destaca a ligação entre mudança climática e o desenvolvimento sustentável para assegurar que um mundo globalizado não deve deixar ninguém para trás.

Leia a íntegra da entrevista à ONU News, realizada por Reem Abaza.

ONU News: Secretário-geral, com a aproximação dos debates da Assembleia Geral, qual é o papel do multilateralismo no mundo atual e o que o sr. está fazendo para fortalecer este papel?

Secretário-Geral: Nós vivemos num mundo com problemas globais: mudança climática, terrorismo, desigualdade… E não existe nenhuma forma de resolvê-los de país para país. Nós vemos, mais e mais, que apenas as soluções globais podem resolver problemas globais. E para que essas soluções possam ser possíveis, precisamos ter mecanismos de governação permitindo os países a juntaram-se e a resolverem em conjunto os problemas da nossa época. Por isso, as organizações multilaterais como a ONU, mas também muitas outras… o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial, organizações regionais como a União Europeia, a União Africana…elas todas são essenciais para permitir-nos encarar os desafios dramáticos que hoje ameaçam a humanidade.

ON: Com todos os desafios enfrentados pelo mundo agora: terrorismo, extremismo, a crise de refugiados, qual é a sua visão sobre o papel que a ONU deve desempenhar no mundo de hoje?

SG: A ONU precisa primeiramente ser um instrumento para o aumento da diplomacia para a paz. E nós estamos a fazer todo o possível, enfrentando todas as crises que temos do Mali ao Sudão do Sul, à Líbia, à República Centro-Africana, à Síria, ao Afeganistão, à Somália, temos feito tudo para convencer as partes desses conflitos, e àqueles que têm influência sobre eles, ou que apoiam as partes do conflito, que nessas guerras não há vencedores. Ninguém está a ganhar. Todos estão a perder.
E isto é absolutamente essencial para que eles esqueçam as diferenças, as contradições de interesses e que possam realmente colocar um fim a essa trágica série de crises, violência e conflitos. Estes conflitos estão a tornar-se mais e mais interconectados e ligados ao terrorismo global. Então, nós precisamos combater os terroristas onde eles estão, mas também temos que lidar com a causa do terrorismo. Isto significa, resolver o conflito, e ao mesmo tempo, criar sociedades coesas, onde as pessoas possam se sentir parte integrante, onde elas não se sintam discriminadas e respeitem os direitos humanos. Assim, as organizações terroristas terão mais e mais dificuldades em recrutar pessoas.
O desemprego jovem, por exemplo. Em certas partes do mundo, este é um dos problemas mais dramáticos que facilitam o trabalho de organizações terroristas ao recrutar pessoas que não têm nenhum futuro.
Nós precisamos de desenvolvimento sustentável, de direitos humanos e de uma abordagem de paz e segurança, para combinar todos os instrumentos da ONU com o objetivo de derrotarmos o terrorismo.

António Guterres em visita ao Sudão do Sul. Foto Mark Garten.

ON: Nós vemos os efeitos da mudança climática em todo o mundo. Qual é a sua mensagem para cada um nesta equação: Governos, sociedade civil, cidadãos, sobre o fenômeno e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável?

SG: Primeiro, a mudança climática é hoje inegável. Eu acabei de voltar do meu país, Portugal, onde estamos a enfrentar uma enorme seca no sul. Estamos a ver incêndios florestais multiplicarem-se terrivelmente. Nos Estados Unidos, em Portugal e outras partes do mundo, estamos a ver ondas de calor, enchentes dramáticas que ocorrem na Serra Leoa, na Índia, no Nepal. Nós sempre tivemos cheias no passado, mas os desastres naturais estão a se tornar mais frequentes, mais intensos e com consequências mais arrasadoras. Nós estamos a ver um aumento de desertos, glaciares a diminuir. Os níveis do mar começaram a subir. Está claro que se trata de um ameaça a todos nós.

Em segundo lugar, nós temos hoje um instrumento importante para combater isto: o Acordo de Paris. Temos que assegurar que todos os países comprometam-se com este tratado. E qualquer país que não possa fazer isto, em nível de Governo, certamente as sociedades, o setor privado, as cidades poderão liderar este caminho. Nós somos capazes de executar o Acordo de Paris, mas com uma ambição maior. O Acordo de Paris sozinho não será suficiente para conter o aquecimento global num nível aceitável.

E ao mesmo tempo, precisamos compreender a clara ligação entre a mudança climática e o desenvolvimento, e a sustentabilidade do desenvolvimento. Então, a Agenda 2030, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, são o programa global endossado por todos os países-membros para alcançarmos uma globalização justa. Uma globalização que não esquece de ninguém. O contrário do que tem acontecido em anos recentes, onde vemos muitas regiões impactadas negativamente pelo progresso tecnológico ou a globalização.

Precisamos assegurar que a globalização que trouxe enormes desvantagens para a humanidade, que não deixa ninguém para trás. Que existe inclusão e que há sustentabilidade para os nossos filhos e netos, para que eles possam se beneficiar daquilo que estamos a construir hoje.

Guterres fala a jornalistas na sede da ONU. Foto: Mark Garten

ON: Uma pergunta importante para mim: paridade de gênero. Quando o senhor assumiu, prometeu fortalecer a paridade de gênero dentro do Sistema ONU. Ao olharmos para os últimos meses, o sr. está satisfeito com o que alcançou até agora? E quais são os seus planos (nesta área)?

SG: Eu nomeei (mulheres) como integrantes do Grupo Sênior de Gerenciamento, que é o nível mais alto da ONU. Dentre as nova nomeações e renovação de mandatos, temos agora 17 homens e 19 mulheres. Isto significa que a paridade está a ser levada a sério por mim e nas decisões que eu posso tomar. E nós teremos, até o fim do meu mandato, este é um compromisso muito forte, em nível de secretário-geral assistente e subsecretários-gerais, em toda a organização, paridade absoluta.

Acabamos de aprovar um plano para paridade que será submetido aos países-membros nas áreas onde estes países precisam tomar decisões que visam alcançar (este objetivo) em 2023, na maioria de áreas da ONU, mas para alguns que possam ter dificuldades mais específicas, haverá em 2028 paridade absoluta para funcionários internacionais em todas as áreas. Isto é um compromisso forte. E não é porque a ideia está agora em debate na opinião pública. Isto deve-se a minha convicção profunda que as organizações funcionam muito melhor quando existe uma presença equilibrada de colegas de ambos os sexos.

ON: Na sua juventude, o sr. defendeu princípios nos quais acreditava. Hoje, o que diria para os jovens que querem fazer algo contra o racismo, a fobia ao islamismo, o antissemitismo e a discriminação?

SG: Eu acredito na juventude como minha esperança porque os jovens são mais cosmopolitas. Eles são menos propensos a tendências irracionais de nacionalismo, de xenofobia, racismo. Eles percebem que a diversidade é uma riqueza e não uma ameaça. Eu espero que os jovens levem suas sociedades, suas comunidades e seus governos a compreenderem que eles precisam de políticas de coesão social, de políticas que permitam a cada um sentirem que a sua identidade é respeitada, e que ao mesmo tempo, eles pertencem a uma comunidade como um todo.

ON: As pessoas querem conhecer o sr. em nível pessoal. Então, vou fazer algumas perguntas sobre este tema. O sr. é um apaixonado por História. Quem são suas figuras favoritas?

SG: Bom, eu tive duas personalidades que foram muito, muito importantes como influência na minha vida política. Ambos ideologicamente e em relação à atitude política, ao comportamento político. Um na minha juventude: Olof Palme. E outro numa etapa mais madura da minha vida: Nelson Mandela. Eu acho que eles correspondem a uma combinação fantástica. De um lado, as políticas que ao mesmo tempo claramente orientadas à igualdade, a uma visão progressiva do mundo, igualdade entre as pessoas e entre as sociedades.
Olof Palme deixou um contributo fantástico ao desenvolvimento de uma visão progressiva de seu país e das relações internacionais. E Nelson Mandela é o símbolo do perdão, da tolerância e da capacidade de reconstruir a sociedade que estava tão profundamente e tão tragicamente dividida.

ON: E agora: autor favorito e livro preferido?

SG: Eu sou, como disse, um leito compulsivo de História. Existem dois autores nesta área que considero o melhor que já li. Um é o francês Georges Duby. Ele foi um excelente medievalista. O outro é o britânico A.J.P Taylor. Mas, claro, eu sou português. Eu venho de um país de poetas. E existe um poeta que considero absolutamente único: Fernando Pessoa.

ON: Com todas as suas responsabilidades como chefe da Organização para a qual as pessoas olham em busca de soluções num mundo complexo, como é que o senhor relaxa. O que o sr. faz para divertir-se?

SG: Bom, eu gosto muito de música. Eu vou a concertos, quase sempre óperas. Eu também gosto muito de arte contemporânea, e aqui em Nova Iorque, é o melhor lugar do mundo para isto. As galerias em Chelsea e outras partes, as exibições em vários museus.

E ao mesmo tempo, eu adoro viajar. E tento descobrir aspectos de heranças culturais ou paisagens que são raras, ou ter contato com pessoas que são diferentes e que nos enriquecem com essa característica. Então, eu diria que estas são talvez as áreas nas quais tento utilizar meu tempo livre, em benefício próprio.

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JORNAL DA ONU - 5 MIN, 21 DE NOVEMBRO DE 2017
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