Entrevista: O sucesso da Guiné-Bissau em tratar doenças negligenciadas

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Doenças Tropicais Negligenciadas. Foto: Irin/Kate Holt

Até 2020, a Organização Mundial da Saúde, OMS, desenvolve a iniciativa com a sigla Espen.  Trata-se do Projeto de Extensão Especial para Eliminação das Doenças Tropicais Negligenciadas, no qual  a Guiné-Bissau foi caso de sucesso para tratar a cegueira dos rios, de nome científico oncocercose.

O responsável de Prevenção e Controlo de Doenças da OMS na Guiné-Bissau, Inácio Alvarenga fala de como a parceria com o Escritório Regional da OMS em África vai marcar a diferença nos próximos cinco anos no país.

ONU News, ON: Qual o cenário local em relação às doenças tropicais?

Inácio Alvarenga, IA: A Guiné-Bissau tem uma população praticamente exposta às doenças tropicais negligenciadas numa percentagem de 94%. Ou seja, 94% da população está exposta a uma ou várias doenças em simultâneo. Essas doenças foram mapeadas em 2005 e referentes à filaríase linfática. A oncocercose, já se sabia desde os anos 80, só em duas regiões do leste do país, Bafatá e Gabu, é que eram endémicas na sua totalidade. Em algumas tabancas mais de 80% das povoações que a gente chama tabancas. As parasitoses intestinais praticamente estavam a 100%, a totalidade do país. a bilharziose estava limitada a algumas zonas com abundância de habitações lacustres na zona da região de Cacheu, a sul da fronteira do Senegal, zona de são Domingos, e algumas localidades bem ecologicamente situadas e propícias para a bulharziose urinária.

Tem por fim o tracoma, doença que leva à cegueira, que também está distribuído homogeneamente por todo o país. Mais de 94% do território está exposto à doença e mais de 95% da população está exposta a essas tais doenças.

ON: Quais os avanços na intervenção do governo com a OMS?

IA: Tivemos histórias de sucesso. Começando pela parte mais agradável, para a oncocercose a Guiné-Bissau pode ter sido possivelmente considerado como história de sucesso e de boas práticas. Sem enveredar pela luta antivectorial, custosa, simplesmente através da quimioterapia preventiva – distribuição de medicamentos à base comunitária, conseguiu-se reduzir a oncocercose a níveis residuais. A oncocercose está praticamente extinta na Guiné-Bissau. Ao contrário dos outros países onde é necessária a luta contra moscas vetoras. A Guiné-Bissau praticamente conseguiu dar à volta a situação simplesmente com destruição de medicamente à base comunitária e periodicamente.

A preocupação prende-se mais com as demais doenças que exigem abordagens mais complexas. Independentemente do atendimento do caso, é o caso da lepra, independentemente das campanhas de quimioterapia preventiva que é a distribuição de medicamentos à base comunitária, em outros complementos que entram e jogam a favor na propagação e na persistência dessas doenças. O problema do fórum de saúde ambiental ou de higiene de base – o abastecimento em água potável e a prática de ter mãos limpas sobretudo antes de comer ou depois de visitar a toiletes. A ausência dessas práticas propicia a propagação das doenças que são de fórum fécalo oral.

Tem também outras partes encorajadoras. A adesão das populações à procura e dos medicamentos. Os efeitos são notórios. São visíveis. Hoje em dia é muito raro encontrar as crianças nas povoações, nas tabancas guineenses que tenham visivelmente um grau de infestação com parasitas intestinais aquilo que a gente chamava de barriga de balão ou barriga de bola. Você via crianças mais ou menos com barrigas desproporcionadas por infestação com parasitas intestinais. Hoje em dia praticamente não se vê isso também graças à integração. São as abordagens integradas da desparasitação associadas às campanhas de vacinação outras intervenções como mosquiteira impregnada em que se associa sistematicamente essas intervenções pontuais.

ON: Como a parceria da OMS com as autoridades guineenses ajuda nos progressos no combate às doenças tropicais negligenciadas?

IA: A OMS tem um mandato internacional que é de ser o assessor técnico dos governos, dos Ministérios da Saúde. Na Guiné-Bissau, o Ministério da Saúde praticamente faz fé em exclusivo às recomendações técnicas da OMS, que a agência tem vindo a pôr à disposição do país na elaboração dos planos estratégicos para cada uma dessas doenças. Na condução de mapeamentos, de estudos sentinelas antes e depois das campanhas de distribuição e medicamentos. Em particular, a OMS como estrutura de estafeta os programas com parceiros como a oncocercose têm um programa especial onde a Guiné-Bissau é considerada um país que potencialmente dá ganhos especiais para a eliminação de doenças tropicais negligenciadas. Nesses moldes, temos a expectativa de receber apoio da OMS do programa Espen no valor de pouco menos de US$ 12 mil no Tracoma Initiative tendo em conta que além da OMS existem parceiros com potencialidades maiores. Em termos de financiamento são parceiros que doam medicamentos. Temos a International Tracoma Initiative, ITI. Para oncocercose e filariose linfática, temos a Mectizan Donation Program dos Estados Unidos. E não é uma série de parceiros que põem medicamentos à disposição.

Para além disso temos parceiros como a Sight Savers Internationlal com projeto em Bissau a partir do tracoma. Estendeu-se também para as demais zonas que estavam em expansão em termos de intervenção na base comunitária. Então eles mobilizaram recursos junto ao governo britânico e praticamente está a agilizar e acelerar a cobertura a nível de todo o país.

ON: Quantas pessoas por ano são afetadas por estas doenças. Falamos de sua exposição e das que têm ficado doentes nesse período.

IA: Para uma população de cerca de 1,9 milhão de habitantes em 2016, a população que teve uma ou outra doença mais ou menos em simultâneo ou isoladamente é estimada em 1,7 milhão de pessoas. Vive em zonas de risco e está em zonas de risco por isso a intervenção em termos preventivos não espera que a pessoa fique doente. Então pega todo o mundo exposto aos fatores que causam essas doenças. Para uma população de quase 2 milhões de habitantes pode-se dizer que 1.750 mil beneficiaram de um ou outro medicamento contra essas doenças.

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JORNAL DA ONU - BRASIL (5 MIN), 24 DE MAIO DE 2017
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