Mia Couto e Eduardo Agualusa entre vozes em prol da ênfase da língua materna

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Escritores e académicos querem preservação e divulgação de idiomas nativos africanos; declarações foram feitas à Rádio ONU a propósito do 21 de fevereiro, Dia Internacional da Língua Materna.

Mia Couto (à esq.), Nataniel Ngomane (centro) e Eduardo Agualusa. Foto: Rádio ONU/Ouri Pota

Ouri Pota da Rádio ONU em Maputo.

O mundo comemora este 21 de fevereiro o Dia Internacional da Língua Materna. Por ocasião da data, a Rádio ONU em Maputo ouviu escritores de Angola e Moçambique sobre a importância do primeiro idioma aprendido na infância.

A proposta do escritor angolano José Eduardo Agualusa é  que haja um maior investimento para dignificar e tornar oficiais os idiomas nativos africanos.

Estatuto  

"Eu acho esta data muito importante sobretudo nos nossos países que têm diversas línguas, além da língua portuguesa. São línguas que, infelizmente, algumas delas enfrentam crises graves. Em Angola concretamente o quimbundo, hoje é muito difícil encontrar jovens na cidade que ainda falem quimbundo fluentemente. Eu tenho escrito muito sobre isso. Acho que é preciso investir na dignificação das línguas nacionais e na promoção destas línguas e que essas línguas precisam de ter estatuto de língua oficial e não apenas de línguas nacionais."

O Dia Internacional da Língua Materna foi proclamado pela Unesco em 1999 com o objetivo de proteger e salvaguardar os idiomas falados em todo mundo.

Diversidade

O moçambicano Mia Couto defende a necessidade de salvar a diversidade linguística que o continente africano possui.

"É importante que se perceba que a diversidade cultural não é simplesmente uma espécie de bandeira, mas é alguma coisa que se vive nessa relação. Nós somos construídos pela nossa própria língua, a língua é materna no sentido não só simbólico, mas no sentido funcional. É como se fosse a nossa mãe, uma segunda mãe. É preciso que haja não só grandes proclamações políticas, mas é preciso um trabalho de fundo para salvarmos esta grande diversidade que é a diversidade linguística, que em África atinge seu "clímax". Não há maior diversidade linguística do que no nosso continente."

Reconhecimento

A ideia é reforçada pelo professor universitário Nataniel Ngomane, cujo doutoramento foi obtido no Brasil. O académico moçambicano acrescenta que a valorização das línguas maternas mantém a identidade de um povo.

"Nós, os africanos que tivemos que lutar para as nossas independências, temos esta grande questão da identidade, que tem que ser construída. Identidade não apenas porque eu falo a língua, mas identidade porque é através desta língua materna que eu vou absorvendo a minha cultura, a nossa cultura não é apenas uma cultura veiculada pela língua portuguesa, porque a língua portuguesa não conhece a cultura Nyanja, Maconde, Matswa, Chuabo, etc… Só as línguas respetivas dessas etnias é que têm o domínio dessa cultura."

A data serve também para recordar ao mundo a morte de vários estudantes pela polícia do Bangladesh devido ao protesto pelo reconhecimento da sua língua, o bengalês. O incidente ocorreu em fevereiro de 1952 em Daca.

Em todo mundo existem mais de 7 mil idiomas. A Unesco estima que metade deles tende a desaparecer.

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JORNAL DA ONU - 5 MIN, 11 DE DEZEMBRO DE 2017
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