Especial Haiti: Missão mira integração e prevenção em futebol para jovens

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Forças da ONU acreditam que esporte, admirado pelos haitianos, tem poder de inclusão de crianças e jovens, e ajuda na prevenção da criminalidade ao promover disciplina, esforço, determinação e jogo limpo.

Foto: Rádio ONU

Eleutério Guevane, da Rádio ONU em Nova Iorque.*

O nome Neymar, o jogador brasileiro que atua no Barcelona, é o primeiro da lista de craques internacionais venerados por crianças e jovens haitianos.  A juventude da ilha caribenha faz parte de uma iniciativa da Missão da ONU no Haiti, Minustah, para levar o esporte às crianças e adolescentes numa tentativa de promover a inclusão social e prevenir a criminalidade. Dados oficiais revelam que somente na capital Porto Príncipe ocorrem 40% de todos os delitos do país.

O treinador haitiano está preparado par a começar a partida, que conta com mais de 100 crianças que se alternam por jogo. Neste campo, todos têm uma chance de bater a bola e de aprender os valores do esporte: disciplina, determinação, persistência e jogo limpo.

Campeonato

A última vez que o Haiti foi classificado para uma Copa do Mundo foi em 1974, na Alemanha. Mas o país, que já foi também um grande exportador de bolas de beisebol para o mercado americano, parece não desistir mesmo de sua paixão pela bola rolando nas quatro linhas do gramado de futebol.

E nesse campeonato na manhã de domingo aqui em Porto Príncipe, as estrelas são o apito, a  banda, a bola e claque ou a torcida.

Os jogos integram uma série de ações sociais levadas a cabo pela Minustah. Além do futebol com crianças e adolescentes, os soldados de paz também fazem visitas a orfanatos, fornecimento de água potável, consertos em estradas, instalações de painéis de energia solar e outros.

E no soar do apito, crianças e jovens haitianos podem se espelhar no futebol mais experiente dos soldados de paz da Minustah, que também "batem um bolão" todos os sábados nos campos do Haiti.

Samba e Futebol

Aqui em Porto Príncipe, quase 300 integrantes da Minustah, de várias nacionalidades, juntam-se perto do acampamento do Batalhão do Brasil.

No centro, tambores, palmas e táticas do esporte que conferiu ao Brasil o único título de pentacampeão do mundo já concedido até agora. Mas o time da Minustah também tem representantes do país vice-campeão de futebol em 2014: a Argentina, e outros vencedores como Bolívia, México e Uruguai. Hoje, o jogo aqui é Índia contra Uruguai.  E em nome do samba e do futebol, até mesmo um amante do críquete indiano se rende à partida, como conta esse capacete azul da Índia.

Mas em meio à diversão, à confraternização e ao esporte, existe uma séria mensagem de inclusão social. No futebol, todos se unem pelo objetivo de marcar gols, de vencer e de se sobrepor aos obstáculos. Além disso, os jovens que se dedicam ao esporte ficam fora de perigos impostos pela violência ou criminalidade, como apostam os organizadores da iniciativa.

Concentração

Para a agente Genevieve Loyer, a iniciativa de apostar no tipo de desporto é importante.  Segundo ela, quando "as crianças se concentram não fazem coisas más, como se estivessem fora das quatro linhas". O jogo transmite alegria. E muitos agentes da Polícia da Nações Unidas, Unpol, comparecem às partidas para torcer pelas crianças. Mas é ali também que eles falam sério ao explicar aos meninos como construir o futuro, estudando, se dedicando, escolhendo uma profissão. E quem sabe, um dia, se quiserem, ser parte das forças de segurança no país, quando forem optar por uma carreira. Deste modo, diz Genevieve, é passada também a mensagem da educação e contra a criminalidade.

Genevieve Loyer joga bola com criança haitiana. Foto: Rádio ONU

Com patrulhas frequentes, as forças da ONU já fazem pressão às gangues para um melhor movimento da população nas áreas urbanas. E são eles que nos acompanham ao bairro de Solino.

O local é considerado o segundo bairro mais perigoso da capital haitiana. Queremos saber mais acerca do papel de futebol nesta área.

Ferramenta

E este é um dia também especial para a policial Genevieve Loyer, que se despede dos meninos depois de um ano de contato constante com o projeto de futebol haitiano. Ela considera o futebol uma ferramenta para a segurança de futuras gerações haitianas. Ela própria uma atleta amadora dos gramados, no Canadá, Genevieve não resiste a entrar em campo com os futebolistas mirins haitianos. Assim que constatou a carência da falta de equipamentos como uniforme, bola, meiões, Genevieve resolveu fazer parte da doação do próprio bolso e contou ainda com apoio de amigos pela internet: com o que arrecadou foi ao Canadá e voltou com o material para as crianças haitianas.

Em campo, o treino dos jogadores mirins é feito por jovens voluntários como parte da iniciativa da Minustah.  E alguns confessam a sua frustração porque os caçadores de talento ou olheiros do futebol ainda não descobriram o Haiti para levar os atletas para o exterior. E aqui, como em qualquer parte do mundo, esses meninos sonham em ser grande um dia.

Marcas do Trabalho

Em francês, Maurice Jonasse, de 13 anos, contou admirar o português Cristiano Ronaldo, que "é forte no gramado, como ele, joga futebol como ele, e marca várias vezes como ele…".

Já Jenato Fadaal confessa não resistir ao estilo do astro de futebol da África do Sul Sipiwe Tshabalala.

Enquanto o jogo acontece, não há porque os pais se preocuparem com os meninos, segundo Savoir Zuly, uma mãe haitiana. Com as mãos que trazem as marcas do trabalho com o carvão, ela também acredita que quantos mais crianças estiverem em campo, menos estarão nas ruas envolvidas em delitos.

Segurança

Nos jogos chegam a participar crianças de áreas disputadas por grupos rivais, segundo os treinadores voluntários. Em termos de perigos, a área de Solino é perigosa como Cité de Soleil, que em épocas mais críticas como em 2004, chegou a ser chamada por alguns capacetes azuis como a comunidade “mais violenta do mundo”.

Ter o futebol para plantar a semente da segurança, acompanha as outras ações da ONU como a formação de polícias numa escola e numa academia apoiados pela Minustah.

Falando a Rádio ONU, o Comissário da Unpol Serge Terriault contou que houve  uma progressão exponencial nos últimos dois anos nas ações da polícia. Mais de 1,1 mil agentes locais foram formados para assumir estas e outras atividades locais.

Com as ações da ONU em apoio à polícia haitiana, a aposta é também lidar com desafios como narcotráfico, assaltos e assassinatos nos bairros. E mais ainda: ensinar cidadania às crianças desde pequenas.

Doações

Hora de cantar o hino haitiano, descansar as pernas e os pés e selar mais um momento de amor ao futebol em Solino.

Capacetes-azuis do Brasil e do Peru. Foto: Rádio ONU

E o sucesso das crianças continua a atrair doações.  Neste domingo, eles receberam mais de 100 quilos de camisas, bolas, botas e outros equipamentos de futebol.  E mesmo com tantos representantes de seleções nacionais e campeãs de futebol como Argentina, Bolívia, México e Uruguai, parece ser  mesmo o batuque brasileiro que anima com sua música e seu gingado os treinos e partidas semanais desses jovens haitianos e da Minustah em Porto Príncipe.

*Série produzida com o apoio da Missão Integrada das Nações Unidas no Haiti, Minustah.

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JORNAL DA ONU - 5 MIN, 8 DE DEZEMBRO DE 2017
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