Especial Haiti: Cité Soleil, oito anos após a pacificação

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Considerada a comunidade mais perigosa de Porto Príncipe, área passou a ser patrulhada pelas forças de paz da ONU (2006-2007), as tropas também levaram assistência e apoio aos moradores haitianos. A Rádio ONU voltou à Cité Soleil para conferir a realidade de 2015.

Militar brasileiro no Haiti. Foto: Rádio ONU

Eleutério Guevane, da Rádio ONU em Nova Iorque.*

Fim da tarde de sábado em Porto Príncipe, os carros-patrulha das forças de paz da ONU abrem caminho para nossa visita a Cité Soleil, no coração da capital haitiana. Antes de 2006, não era fácil entrar aqui, o local era tomado por criminosos que ameaçavam os moradores, os trabalhadores e qualquer visitante não anunciado.

Incidente

Hoje, oito anos depois, Cité Soleil respira ares menos ameaçadores. Mas certos cuidados são necessários em algumas áreas. O capacete azul, sinaliza o integrante da força da paz, e o colete à prova de bala dá mais segurança em caso de qualquer incidente, alertam militares brasileiros, que nos acompanham nesta viagem… Ao todo, são mais ou menos 10 quilos de equipamento de segurança, isso sem contar armamentos e outros itens.

O comandante das forças de paz na época da pacificação de Cité Soleil, o general Carlos Alberto dos Santos Cruz, lembra nesta entrevista à Rádio ONU, em 2009, como foi vencer o crime na comunidade, devolvendo-a aos moradores.

Assistência

Sobre a operação que marcou a estabilização de Cité Soleil, Santos Cruz, comentou a relevância de aliar o ganho das forças a ações de assistência social.

“Quem faz a maldade é muito pouca gente, que é os criminosos. Você tem que ter o sentimento de que voe vem aqui trabalhar para o bem da população. Quando você tiver esse sentimento, você vai transmitir isso no seu olhar, no teu jeito de agir, vai tecnicamente evitar o dano colateral. Você vai dar trabalhar para ter informações boas contra aqueles que realmente têm ação contra os integrantes dos grupos armados.”

Crimes

Os militares se comunicam assim com rádios. Qualquer sinal é registrado para evitar delitos e crimes, na área que já foi considerada a campeã de criminalidade em todo o país. Dados oficiais sugerem que há 92 agentes da Polícia Nacional do

Equipamento da equipa Swat.Foto: Minustah

Haiti para 240 mil habitantes. Um desnível que é corrigido com a ajuda das tropas de paz… Mas como é o mandato do contigente internacional, segundo o Conselho de Segurança que decide a atuação dos militares da ONU na ilha?

Nessa sessão do Conselho de Segurança, de outubro de 2014, a embaixadora da Argentina, Maria Cristina Percival, que dirigia o Conselho de Segurança naquele mês, presidiu a sessão do órgão sobre reduzir a força da Minustah de 5021 para 2370 soldados. No país, a força deve manter 2601 polícias. O atraso nas eleições, no entanto, levaria o Conselho a manter o contingente até depois do pleito.

Tráfico Ilegal

No Haiti, a comunidade internacional também apoia o país a deter o crime organizado. O Conselho menciona o tráfico ilegal de armas, de drogas, de pessoas (especialmente de crianças) e a importância de assegurar a gestão adequada das fronteiras.

Mas o combate às gangues locais lidera as prioridades, apesar dos patrulhamentos alguns assassinatos continuam, mas o objetivo é reduzir a zero o número de crimes.

O coronel Ribeiro, do Brasil, comanda os 157 militares da 2ª. Companhia de Fuzileiros das Forças de Paz. Ele fala do principal alvo das patrulhas da missão.

“Estas gangues têm a particularidade de querer extorquir comerciantes dos mercados e todo o comércio dentro dessas áreas. E a intenção deles é ter o poder sobre a área. Quanto maior a área, maior o poder de extorsão e maior o controle do poder sobre a população. Como é poder, eles ficam entrando em conflito para poder pegar cada um a sua área distinta.”

Patrulhas

Um outro militar brasileiro, o tenente Fabiano dá mais detalhes das patrulhas.

“Inibindo esses ilícitos, permitimos que os outros componentes da missão possam cumprir as suas tarefas. O principal objetivo é criar as condições de segurança para que os outros componentes tenham liberdade de ação para trabalhar,  como a policial, a civil voltada para atividades de desenvolvimento e assistência humanitária.”

No seguimento do percurso, crianças cantam a perseguir a comitiva. A patrulha dedica um momento para caminhada, na qual contemplamos uma haitiana na terceira idade que conheceu outros tempos de Cité Soleil. Perguntamos a ela, o que acha da situação atual.

Segundo a moradora, as forças de paz ajudam as pessoas a avançar com as suas vidas. Para ela, a presença militar ajuda na segurança. Mas ela confessa temer o piorar da situação após a saída das tropas.

Segurança

Exercício da equipa Swat. Foto: Minustah

E nossa visita continua por becos e atalhos, onde encontramos um adolescente, morador de Cité Soleil.

O jovem conta ter aumentado o movimento de pessoas nas ruas após a chegada da patrulha e do posto de segurança dos capacetes azuis.

Apesar do entusiasmo de muitos moradores, outros homens mais velhos haitianos preferem ficar longe dos nossos microfones e observam nossa visita à distância. Passamos por mercadinhos, bancas vendendo arroz, açúcar e outros produtos.

Dia-a-dia

Tudo isso sinais de que da retomada do  dia-a-dia dando a entender que a Cité Soleil de 2015 está bem diferente daquela de 10 anos atrás.

Quem confirma é o coronel Luiz Carlos Brioso, que falou das ações das tropas de paz para manter o ambiente estável e seguro.

“Nós levamos água, semanalmente, porque aqui não existe suprimento de água fornecida pela empresa de saneamento público. Em tese, o ambiente já está estabilizado. Não existe mais a guerra civil que estava acontecendo em 2004, ela já foi pacificada pela ação das tropas da ONU. Nós passamos agora para a segunda fase ,que é o que se chama de peacebuilding. Depois do peacekeeping que é a manutenção da paz, estamos passando para a construção da paz através de trabalho de infraestrutura e trabalhos sociais com a tropa de engenharia. Estamos tentando levar a sustentabilidade dessa paz que foi conquistada pelas armas.”

E ao que parece, a preocupação desses soldados de paz não é só com a segurança, mas também em combater um outro inimigo: cólera. Ao voltarmos à base, somos orientados a limpar as mãos com álcool gel e os pés com água tratada para evitar qualquer contaminação com a doença. E apesar de a tarefa de patrulhar Cité Soleil fique a cargo das tropas brasileiras, no comando central, a Minustah é apoiada por forças de paz de outros países incluindo: Argentina, Bangladesh, Chile, Índia, Ruanda,Uruguai entre outros.

Minustah

No carro-patrulha, os militares dizem que as forças locais precisam estar seguras de que na partida das tropas internacionais, elas poderão avançar.

Avistamos à distância a àrea conquistada pelas forças da ONU entre 2005 e 2007. Cité Soleil deve beneficiar dos planos de aumento de efetivos  da Polícia Nacional do Haiti. Até ao fim do próximo ano, espera-se ter mais 3 mil policiais para

Tropas da Minustah. Foto: Rádio ONU

compor aos atuais 12 mil e ajudar a consolidar a paz e a segurança não só em Cité Soleil, ou Porto Príncipe, mas em todo o Haiti.

No próximo programa, como se pensa o Haiti após a Minustah.

*Série produzida com o apoio da Missão Integrada das Nações Unidas no Haiti, Minustah.

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JORNAL DA ONU - 5 MIN, 14 DE DEZEMBRO DE 2017
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