Entrevista: Ziraldo

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Ziraldo. Foto: Arquivo Pessoal

A Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, Unesco, marcou esta quarta-feira como um "dia de reflexão" e de debate sobre a liberdade de expressão.

O evento "Jornalismo Pós-Charlie", realizado na sede da agência da ONU em Paris, teve como foco também a necessidade de reforçar o respeito à diversidade.

Ele acontece depois dos ataques contra a revista francesa Charlie Hebdo e a um supermercado judaico na capital do país, na semana passada.

Do Rio de Janeiro, o cartunista e escritor Ziraldo falou à Rádio ONU sobre o que ele acha que deve mudar no jornalismo depois dessa tragédia.

Para Ziraldo, o Ocidente está aceitando viver sob essa ameaça. Segundo ele, "não há mais paz na Europa, principalmente, por causa da ameaça permanente do terrorismo".

O cartunista disse que é preciso ter muita imaginação e muita criatividade para resolver a questão.

Acompanhe a entrevista com Edgard Júnior.

Duração: 03’50″

O cartunista e escritor Ziraldo falou à Rádio ONU sobre como ficará o jornalismo depois do ataque terrorista à revista francesa Charlie Hebdo, em 7 de janeiro.

Rádio ONU: A Unesco está realizando um dia de reflexão, um debate sobre a liberdade de expressão e sobre a segurança dos jornalistas depois dos ataques contra a revista francesa Charlie Hebdo. O que muda no jornalismo depois desse ataque de uma forma geral?

Ziraldo: Olha, eu acho que a questão é muito mais ampla do que isso, é bem mais ampla do que isso. O Ocidente está aceitando viver sob esta ameaça. Você não tem paz, na Europa principalmente, você não tem mais paz por causa dessa ameaça permanente do terror. O que está acontecendo com o Ocidente, na minha opinião, é que eles têm que arranjar uma solução para viver em paz porque cada vez vai se agravar mais (a situação). Porque a guerra não convém e o diálogo é impossível. É preciso ter muita imaginação e muita criatividade para resolver a questão. Não vai ficar só atento à liberdade de expressão ou o que vai acontecer com o jornalismo daqui para frente. O que a humanidade tem que procurar é uma maneira de não viver mais assim. Agora, qual é a solução? Eu não sei, estou esperando eu fico pensando o dia inteiro nisso, meu Deus, qual vai ser a solução?

RO: Ziraldo, você acha que devido a esse ataque os cartunistas vão ter mais atenção ou medo de tocar em assuntos mais delicados ou polêmicos?

Ziraldo: Isso depende do país. A Inglaterra, o humor dos ingleses é bastante ferino. Você vê o que os Monty Pythons (grupo de comediantes) fizeram com a história de Cristo, da Igreja católica, do catolicismo, a gozação que os ingleses fazem com a própria realeza inglesa. Eles tocam em todas as formas de poder mas de maneira completamente diferente do francês porque os temperamentos são diferentes. Aqui no Brasil nós tínhamos o nosso Charlie Hebdo, que era o Pasquim. Nós enfrentamos a ditadura. Enfrentamos e parecia que era muita coragem…Eles jogaram uma bomba no Pasquim, que não explodiu, jogaram outra, prenderam a gente várias vezes e depois começaram a colocar fogo nas Bancas e nós não paramos. Não pode parar, não pode parar! Então, eu acho que tudo depende de como a imprensa, os cartunistas e a população convivem com esse fenômeno de respeitar a liberdade de imprensa e de expressão, depende da maneira de ser de cada país, na minha opinião.

RO:Se fala muito agora em educação, compreensão, harmonia e respeito à diversidade. Você acha que é possível mudar a cabeça desses fanáticos?

Ziraldo: Não! Eles não têm dúvida nenhuma sobre o que estão fazendo, quer dizer, aquilo já está arraigado na alma deles, no coração, no DNA mesmo. Então, como é que a humanidade vai resolver essa questão. É uma questão terrível, o Ocidente não pode viver sob essa ameaça permanente, principalmente a Europa que é uma espécie de centro do mundo. Como é que eles vão sobreviver com essa inquietação permanente? Alguma coisa tem que ser feita, não o que é. Tem que sentar para pensar porque a humanidade não vai se extinguir, só no macrotempo é que certamente um dia, como os dinossauros, a gente vai sumir da face da Terra porque a Terra não para de mover. Mas dentro da possiblidade do que nós podemos imaginar, você não pode continuar vivendo desse jeito. Alguma ideia genial, algum trabalho tem que ser feito para que a gente viva em paz.

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JORNAL DA ONU - 5 MIN, 8 DE DEZEMBRO DE 2017
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