Entrevista: Na ONU, Alfredo Sirkis fala sobre avanços na questão ambiental

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Alfredo Sirkis. Foto: Rádio ONU

Deputado Federal (PSB-RJ), Alfredo Sirkis está em Nova York acompanhando a 69ª sessão da Assembleia Geral. Enviado à sede da ONU pelo Congresso Brasileiro como conselheiro para Mudanças Climáticas, o deputado é presidente da Comissão Mista do Congresso sobre o tema e também vice-presidente da Comissão de Relações Exteriores e da Defesa Nacional.

Alfredo Sirkis diz que o mundo está vivendo um momento melhor sobre a urgência de combate à mudança climática. Ele elogiou as manifestações populares pelo fim do aquecimento global, como a que ocorreu em Nova York, com centenas de milhares de pessoas, no dia 21 de setembro.

Para o especialista em meio ambiente e co-fundador do Partido Verde no Brasil, a decisão do governo de não assinar o Acordo sobre Florestas, durante a Cimeira do Clima,”não faz muita diferença na prática” para o combate ao desmatamento no Brasil. Segundo Sirkis, a adesão à iniciativa, no entanto, sinalizaria uma proatividade política do Brasil no assunto, em nível internacional.

De acordo com o deputado federal, o Brasil deve chegar às Conferências sobre o Clima em Lima, este ano, e em Paris, em 2015, com uma posição negociadora privilegiada por ser a nação que mais reduziu emissão de gases que causam o efeito estufa no valor agregado. Ele elogiou ainda a diplomacia brasileira que considera “bem estruturada e com abrangência” para o sucesso de tipo de negociação.

Acompanhe a conversa com Mônica Villela Grayley, da Rádio ONU.

Duração: 11’50″

Leia a entrevista na íntegra:

Rádio ONU: Deputado, qual é a sua leitura desta Cimeira do Clima 2014 aqui na ONU?

Alfredo Sirkis: Olha, é a velha história do copo meio cheio, meio vazio. Se a gente for olhar pelo lado negativo, de fato não percebi uma negociação que preparasse para a Conferência de Lima, que vai ser em dezembro deste ano, e a Conferência de Paris, que vai ser em dezembro do ano que vem. Os chefes de Estado só se encontraram no jantar, então foi mais um processo discursivo do que um processo que realmente preparasse o terreno para um acordo considerando que tem muitas coisas ainda pendentes, muitas coisas ainda difíceis de resolver ainda no caminho de Paris…

RO: Que coisas, por exemplo?

AS: É a natureza do acordo que vai ser assinado. Até que ponto ele vai ser obrigatório ou não? De que forma ele vai ser exercido? É uma série de questões que ainda não estão claras. Isso é o copo meio vazio. O copo cheio é que eu vejo uma mobilização maior nos países, e particularmente aqui nos Estados Unidos. Um clima de mobilização maior em cima da questão climática. Não é à toa que tivemos uma manifestação de 350 mil pessoas nas ruas de Nova York. E, por outro lado, uma coisa que me chamou a atenção, de forma positiva, é uma discussão importante sobre a relação da questão climática com a questão econômica. O início de uma consciência de que a crise climática só vai se resolver se houver a possibilidade, se atribuir valor econômico à redução do carbono. Considerar a redução de carbono uma unidade de valor financeiro conversível, uma espécie de moeda do clima. O que acontece é que nos dias de hoje, os recursos disponíveis na mão de todos os governos são muito limitados. E é necessário US$ 1 trilhão por ano para promover a transição energética do carvão, do petróleo para as energias limpas. Por outro lado, nós temos no setor financeiro internacional um excesso de liquidez. Uma poupança gigantesca. São cerca de US$ 200 trilhões circulando nos circuitos financeiros internacionais. O grande desafio prático na questão climática é como você consegue atrair pelo menos uma pequena parte deste mundareu de dinheiro, que existe na especulação financeira internacional, para uma economia produtiva e para financiar a transição para uma economia de baixo carbono. Então, há várias formas de fazer isso. E eu vi que esta questão está começando a preocupar. Eu vi isso no discurso do presidente do México, da presidente da Coreia (do Sul) e sobretudo no discurso do presidente do Banco Mundial.

RO: O fato de países como Estados Unidos e China terem (anunciado e) reconhecido que têm que fazer mais, e o próprio setor privado prometer esses US$ 200 bilhões, em si, não sinalizariam um avanço?

AS: Sem dúvida nenhuma. Os Estados Unidos pela primeira vez na sua história, de uns três anos para cá, têm diminuído as suas emissões em função da revolução do gás de xisto, que provoca uma série de outros problemas ambientais, mas em termos de clima é positivo porque se queima menos carvão e mais gás. E o gás é menos carregado de gases estufa, sobretudo CO2 que o carvão. Isso permitiu aos Estados Unidos reduzirem suas emissões de forma significativa nos dois anos anteriores. Esse último ano parece que já estabilizou. No caso da China que hoje é o principal país emissor, a China está emitindo mais de 25% das emissões do planeta, existe claramente uma disposição da Cúpula do Partido Comunista e do Governo Chinês de avançar mais. A China, por enquanto, trabalha em cima da chamada redução da intensidade de carbono por unidade percentual do Produto Interno Bruto, mas as emissões da China, no absoluto, no chamado agregado, elas têm aumentado sem parar. E evidentemente, o que determina os destinos do planeta são as emissões no agregado.

RO: Agora, vamos falar um pouquinho sobre o Brasil. O país ficou de fora da Declaração (Acordo) sobre Desmatamento. Tecnicamente, qual é a consequência, o que significa esta decisão?

AS: Olha, eu lamento o Brasil não ter assinado… Eu acho que o Brasil deveria ter sido proativo. É o Brasil que deveria ter proposto esta declaração sobre florestas. Até porque depois de vários anos que o desmatamento caiu no Brasil, de forma significativa, nestes últimos anos ele tem retomado.

RO: E qual é a causa?

AS: A causa é um certo relaxamento do controle. Há causas locais e específicas que acontecem, mas como a economia do Brasil não está em grande expansão neste momento, a ampliação do nosso PIB tem sido abaixo de 1%, eu não acho que seja devido a uma intensificação de atividades econômicas. De qualquer jeito, eu acho que isso ainda não é uma situação alarmante porque a gente já teve, em outros momentos, situações de queda e piquezinho, e depois uma nova situação de queda. Mas de qualquer jeito, eu quero dizer que sobretudo nesta conjuntura, quando, de fato, de novo, há um aumento do desmatamento, o Brasil tinha que ter sido proativo nesta questão.

RO: Então, tecnicamente o fato de ficar de fora não faz diferença?

AS: Olha, eu não vejo que seja tecnicamente. É politicamente. Tecnicamente importa o que de fato você está fazendo no território. O que você acorda internacionalmente pertence mais ao campo da política do que propriamente da técnica. Na conjuntura internacional, com todos os problemas que o Brasil tem, o Brasil ainda é um dos países se não o país, que mais tem feito. Embora seja altamente insuficiente..Se nós somos praticamente os melhores, imagine o resto…

RO: Inclusive essa performance (de combate à mudança climática do Brasil) tem sido elogiada também pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Pnuma. Achim Steiner, o diretor-executivo do Pnuma, tem elogiado esta questão da política ambiental. Então, como é que o Brasil deve chegar para este acordo em 2015 em Paris, o Acordo Universal sobre o Clima, na sua opinião, deputado?

RO: A posição negociadora do Brasil, ela é sempre privilegiada. O Brasil foi realmente o único país em desenvolvimento que conseguiu, de fato, diminuir as suas emissões no agregado. Aí, não falo de intensidade de carbono, porque isso vários outros países têm conseguido. No caso a China, por exemplo, mas o Brasil foi o único país que reduziu as suas emissões de gases efeito estufa. Então, isso nos dá uma moral boa. Embora, como eu falei, nos últimos meses tem havido um aumento do desmatamento. Por outro lado, do ponto de vista diplomático, o Brasil ao mesmo tempo, tem uma liderança no Grupo do G77 mais China, e é um país que tem boas relações com Estados Unidos e com a Europa. E temos uma diplomacia bem estruturada com tradição, com abrangência, então o Brasil pode jogar um papel extremamente importante…

RO: Agora, vamos falar da sua expertise nesta área. O sr. é um dos fundadores do Partido Verde no Rio de Janeiro, milita há várias décadas nesta área. O sr. está feliz com o ponto ao qual chegamos hoje. Não só a Cimeira do Clima, mas também, como o sr. mencionou o fato de o cidadão comum estar acordando para a questão ambiental e a seriedade dela?

AS: Eu tenho visto ao longo destas últimas três décadas, altos e baixos. A vida, toda hora, nos confronta com situações animadoras e outras desanimadoras. Eu como sou um otimista inveterado, prefiro prestar mais atenção nos sinais positivos. E eu vi diversos sinais positivos aqui na ONU, já me referi ao discurso do presidente do Banco Mundial, ao discurso do presidente do México, que achei muito interessante, ao da presidente da Coreia (do Sul), e do próprio Barack Obama (embora tenha sido um discurso muito para consumo interno), eu vejo que isso está evoluindo. Esta manifestação de 350 mil pessoas em Nova York… De qualquer maneira, eu acho que nos Estados Unidos, a situação está evoluindo, no Brasil, na China. E são grandes manifestações. Os verdes se mobilizam na China em manifestações de 10 mil pessoas exigindo o fechamento de uma usina altamente poluidora. Eu vejo no mundo todo, uma mobilização em torno dessas questões. Vejo, o que é muito importante também, no segmento empresarial, essa consciência abrindo caminhos. Agora, é claro, há setores que são recalcitrantes. São fortes, são poderosos, a indústria do petróleo, mas não toda ela, tem empresas de petróleo que mudaram seu comportamento. E penso também que a questão fundamental é que haja esta tomada de consciência no segmento da finança internacional. É ali que estão os recursos, que podem futuramente financiar a transição para a economia de baixo carbono.

RO: Para terminar, o sr. esteve aqui em 2002 para os debates da Assembleia Geral. Qual é o balanço que o sr. faz até agora.

AS: Olha só, tivemos o discurso do presidente Barack Obama basicamente muito voltado para a questão do terrorismo, tivemos uma série de outros chefes de Estado que falaram. Eu estou muito curioso para o discurso do presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, porque parece que ele fará propostas novas. Eu me interesso por política internacional então para mim é sempre um prazer estar aqui na ONU.

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