Entrevista: Catarina Furtado

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Apresentadora da TV portuguesa e embaixadora da Boa Vontade do Fundo das Nações Unidas para a População fala à Rádio ONU sobre o desafio das mulheres que sofrem com fístula obstétrica.

Catarina Furtado em entrevista à Radio ONU. Foto: Rádio ONU

Leia a íntegra da entrevista a Eleutério Guevane.

Rádio ONU: Qual deve ser o ponto de concentração do mundo sobre o problema da fístula?

Catarina Furtado: É preciso ter muita consciência das consequências da fístula e os porquês do aparecimento da fístula. Eu tive a oportunidade de fazer alguns documentários, nomeadamente na Guiné-Bissau, a propósito dos programas concretos do Unfpa sobre erradicação da fístula ali naquele território. E de facto, eu pude testemunhar e falar com mulheres com fístula a quem ocorreu esse dramático problema. E nessas conversas o que me foi dito, o que ficou para mim muito claro é que essas mulheres ficam completamente isoladas de qualquer vida pública, da vida social. E ficam, a maior parte das vezes completamente abandonadas não só pelos maridos, mas também pelas famílias. A fístula tem consequências ao nível do odor, as mulheres ficam sem poder ter uma vida normal. Eu conheci mulheres que estavam basicamente fechadas num canto sem qualquer tipo de visita. Isso é uma coisa completamente terrível e inimaginável.

E a fístula acontece, está, muitas vezes, ligada à mutilação genital feminina, aos casamentos precoces e à falta de cuidados e de recursos no que diz respeito à saúde sexual e reprodutiva. O que eu percebi é que nos países, onde o Unfpa está a atuar com programas de prevenção, tratamento, mas sobretudo prevenção e e de apoio à saúde sexual e reprodutiva, ao planeamento familiar, estas situações tendem a ocorrer com muito menos frequência. Eu acho que esses programas do Unfpa têm de ser apoiados e reforçados. É urgente que nos concentremos no esforço e no apoio financeiro aos programas do Unfpa. Estes programas trazem uma diminuição de casos ligados ao casamento precoce, gravidezes precoces. Este programas fazem com que as raparigas tenham opções de poder ir à escola e terem outro tipo de educação no futuro.

RO: Teve contato com as pessoas que ajudam a realizar esses programas no terreno, a combater esse problema?

CF: Diretamente não. Eu tive contato com os programas no terreno e a diferença que fazem. Nos programas que eu fiz, falamos do tratamento, da operação e do pós-operatório em casos de fístula. Mulheres que fizeram uma cirurgia para ficarem sem esse problema. Obviamente, essas operações têm os seus custos. E é nisso que eu me concentro. Em apelar aos atores financeiros para que esses programas possam ser reforçados nos locais. Nunca mais irei esquecer de mulheres que entrevistei, e que não falavam praticamente por vergonha do que sofriam. Muitas delas perdiam os próprios filhos porque ficavam fechadas, isoladas.

RO: Este drama humano leva à responsabilidade pessoal. Algum apelo para os membros da família?

CF: A fístula está muito associado à discriminação. Eu acho que a discriminação é uma das doenças maiores que a humanidade tem. E provavelmente a discriminação cura-se com muito menos recursos que muitas outras questões. O apelo que faço é não discriminar. É as pessoas estarem atentas aos sinais da discriminação, combaterem esses sinais e procurarem estes tipos de programas.

RO: O que mais pode ser feito em nível de ações para combater o problema?

CF: Acho que o timing agora é precioso porque estamos a construir a agenda pós-2015 não podemos deixar de parte nesta construção as questões relativas às mulheres e aos jovens. Tudo o que a ver com saúde sexual reprodutiva de jovens e mulheres tem que ficar isolado como um tópico, um objetivo a atingir para que haja, de facto, um empenhamento nessas questões. Das mulheres e das jovens, da educação, da justiça social, da capacitação, da participação cívica das mulheres e dos jovens. Daquele potencial que estamos a desvalorizar e nem sequer a contar e o que isso representa em termos de oportunidades perdidas para as economias do país, ou de cada país evidentemente. No fundo, temos que concentrar na igualdade de gênero, das mulheres e dos jovens, da construção da agenda pós-2015. Todos nós temos essas agenda à mão, todos podemos ajudar naquilo que vai ser a construção do tal mundo justo que queremos todos. Convido as pessoas a procurarem no Facebook o vídeo da campanha "Continuamos à Espera" para participar ativamente na construção desta agenda.

FIM

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