Guiné-Bissau vai às urnas neste domingo, dois anos após golpe de Estado

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Mais de 95% dos eleitores do país africano de língua portuguesa registraram-se para votar; Rádio ONU conversou com representantes do Brasil, de Portugal, da Cplp e com o chefe da missão política das Nações Unidas em Bissau, José Ramos Horta, sobre a votação.

Guiné-Bissau. Foto: Governo da Guiné-Bissau

Mônica Villela Grayley, da Rádio ONU em Nova York.

Neste domingo, 13 de abril, os eleitores da Guiné-Bissau saem às ruas para eleger os novos representantes do Parlamento e da Presidência do país. Para reconquistar este direito, os guineenses tiveram que esperar vários anos.

Em 12 de abril de 2012, às vésperas daquelas que seriam as últimas eleições guineenses, um golpe de Estado suspendeu todo o processo e tirou do poder o presidente interino e o primeiro-ministro.

Governo de Transição

Imediatamente após o golpe, a comunidade internacional entrou em ação para condenar a medida. Foram várias sessões de emergência no Conselho de Segurança, na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e em fóruns africanos.

Na prática, o gabinete guineense e o Parlamento, democraticamente eleito, foram dissolvidos, e uma  administração civil-militar foi anunciada com a formação de um governo de transição guineense.

Cerca de 10 meses depois do golpe, chegava à Guiné-Bissau o representante especial do secretário-geral da ONU, José Ramos Horta. Ex-presidente e ex-primeiro-ministro do Timor-Leste, Ramos Horta é também Prêmio Nobel da Paz, e não esconde sua admiração pelo povo e cultura.

Boa Vontade

Como tarefa, ele tinha que levar à mesa as partes em conflito e assegurar as bases para a realização de eleições e para a restauração da ordem democrática.

Em várias entrevistas à Rádio ONU, durante este período, José Ramos Horta afirmou a boa vontade dos guineenses em retornar o país à senda do crescimento e da democracia.

Ramos Horta. Foto: ONU/Martine Perret

Poucos dias antes da realização do pleito, neste domingo, ele voltou a falar com a Rádio ONU, de Bissau, e disse que estava otimista com a votação deste 13 de abril.

Resultado Eleitoral

"Eu me reuni com Antonio Indjaí, general das Forças Armadas. E ele estava acompanhado de outros colaboradores. E ele assegurou-me que as Forças Armadas honrarão o resultado eleitoral. Assegurou-me que as Forças Armadas observam neutralidade rigorosa e que observam tolerância zero em relação à manipulação ou envolvimento de militares em todo este processo. Esta é a palavra do general Antonio Indjaí.”

Já o embaixador de Portugal junto às Nações Unidas, Álvaro Mendonça e Moura, afirmou que a expectativa para as eleições é positiva. Segundo ele, é hora de a Guiné retornar à normalidade e ao seio da comunidade internacional.

"A nossa expectativa é muito alta. Mas agora, cumpre aos guineenses, efetivamente, votarem livremente e escolherem os seus candidatos. Depois, e isto infelizmente por vezes não se verificou na Guiné, respeitar inteiramente os resultados eleitorais. É isto que a comunidade internacional espera e também exige."

Plataforma

Uma das organizações regionais que condenaram o golpe de Estado da Guiné-Bissau foi a União Africana. Neste domingo, a entidade terá um representante para observar a realização do pleito. Nesta entrevista à Rádio ONU, antes de embarcar a Bissau, ele falou sobre o que espera dos guineenses após a votação. O ex-presidente de Moçambique, Joaquim Chissano.

“Apelar ao povo da Guiné-Bissau para criar uma plataforma de base para continuarem a dialogar para criar melhores instituições, melhor legislação e melhor organização social para puderem discutir os seus problemas que são muitos. Têm problemas de desigualdades, problemas talvez até de exclusão mas esses problemas não podem ser resolvidos com violência, sem paz e sem harmonia. Têm problemas de de pobreza que não podem ser resolvidos por forma de cada um resolver o seu problema de pobreza.

Segurança

O Brasil foi um dos países que reprovaram o golpe. Na época, ainda membro rotativo do Conselho de Segurança, o Brasil pediu o retorno imediato da ordem institucional.

O país estava investindo muitos esforços na Guiné-Bissau em ajuda ao desenvolvimento, no processo de reforma do setor de segurança, e presidia ainda a estratégia de paz dentro das Nações Unidas para a nação africana.

Antônio Patriota Foto: Paulo Filgueiras/Itamaraty

Mesmo recuando na quantidade de ajuda destinada à Guiné, o Brasil enviou policiais militares para treinarem oficiais guineenses e ajudarem com a segurança da votação deste domingo, como contou à Rádio ONU, o embaixador brasileiro, Antonio Patriota.

Brasil

"Estamos enviando alguns técnicos eleitorais agora para ajudar a organizar as eleições. E, como eu mencionei, o Centro de João Landim para treinamento de policiais que ajudarão a trazer este ambiente de estabilidade e de calma imprescindível para que as eleições sejam bem-sucedidas.”

Mas para um especialista em Guiné-Bissau, o acadêmico guineense e doutor em Economia, Carlos Lopes, as eleições podem abrir um novo caminho na história do país, caso a reforma militar seja feita sem demoras.

Carlos Lopes que é também o chefe da Comissão Econômica das Nações Unidas para África falou à Rádio ONU sobre sua expectativa para o pleito.

Refém

"As eleições são um elemento importante e desejo, evidentemente, que elas passem muito bem, mas os problemas da Guiné-Bissau estão fundamentalmente ligados ao fato de não termos profissionalizado as Forças Armadas e elas estarem sempre por cima, como uma nuvem, que pode pôr em causa os processos políticos, mas também que tem transformado o país numa espécie de refém a nível social."

Para o economista guineense, os sucessivos golpes de Estado causaram também o atraso na economia do país africano.

Esperança

"Muito do progresso que os outros países vizinhos conseguiram nos últimos anos, e podemos dar o exemplo de um país como a Gâmbia que tinha uma economia que era a metade da Guiné-Bissau e hoje é duas vezes maior que a da Guiné-Bissau, tem a ver com o fato de nós não termos resolvido esse problema dos militares. E portanto, acho que os fatos falam por si mesmos. Temos uma dificuldade muito grande de poder consolidar a democracia quando se sabe que esta democracia pode ser posta em causa todo o tempo pela intervenção militar."

Carlos Lopes

A Guiné-Bissau tem enfrentado desafios de consolidação democrática desde a independência de Portugal em 1974. Mesmo com o último golpe de Estado em 2012, os guineenses se mantiveram resolutos em sua determinação pela liberdade. Assim que foi aberto o recenseamento dos eleitores para a votação de domingo, mais de 95% deles fizeram os seus registros.

A voz dos guineenses será ouvida neste domingo em eleições diretas que definirão o futuro próximo deste país de língua portuguesa do oeste da África.

 

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JORNAL DA ONU - BRASIL (5 MIN), 21 DE JULHO DE 2014
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