Entrevista: José Ramos Horta

Representante especial do Secretário-Geral das Nações Unidas fala à Rádio ONU sobre a mensagem de esperança para o futuro da Guiné-Bissau, os desafios do tráfico de drogas, o trabalho da mídia e o papel dos países de língua portuguesa no apoio à nação lusófona africana.

 

Ramos Horta e Ban Ki-moon em encontro na ONU

Mônica Villela Grayley e Eleutério Guevane, da Rádio ONU em Nova York.*

Rádio ONU: Qual é a sua mensagem ao Conselho de Segurança sobre a situação em Guiné-Bissau?

Ramos Horta: A minha mensagem é que há esperança. Houve alguns passos pequenos, as coisas estão voltando ao lugar desde a minha chegada. Estou trabalhando bem de perto com organizações regionais como a Cedeao, a União Africana, a Cplp, a União Europeia e os parceiros da ONU. Estamos desenhando uma visão e estratégia conjuntas sobre como assistir a Guiné-Bissau neste rápido processo de transição para eleições, que esperemos, ocorra em novembro. Tem que haver um governo mais inclusivo. Isso pode ocorrer nos próximos dias, uma semana ou duas. Isso ajudaria a estabelecer as bases para que a União Africana levantasse a suspensão da Guiné-Bissau como membro do bloco. Na verdade, a União Africana fez a coisa certa, assim como também foi o caso da União Europeia e da Cplp. Hoje, no século 21, não se pode dar um golpe de Estado e esperar que o resto do mundo não note, e que tudo continue do mesmo jeito. Não. Houve uma reação forte, e previsível, da União Africana. E isso deve ser louvável.  Isso seria impensável 30 anos atrás. Havia tantos golpes de Estado na África. Mas hoje, há menos porque os africanos estão impondo padrões. Foi totalmente correto. Isso encorajou os líderes políticos na Guiné-Bissau, que não se envolveram no golpe militar; mas isso está levando a acelerar, a intensificar os esforços para o diálogo e promover discussões em todos os níveis para uma visão comum. Então, esperamos que haja um governo inclusivo, muito em breve, as eleições em novembro. Nem tudo é negativo ou crime organizado na Guiné-Bissau. Fora disso, existem as pessoas da Guiné-Bissau. É um país muito multiétnico, multireligioso e multicultural. Nunca houve violência étnica na Guiné-Bissau, você nunca viu comunidades se matando, jovens saqueando prédios públicos e lojas, assassinatos, roubos. Os guineenses são pessoas fabulosas. E isso sempre me deixou maravilhado.  Então, eu tenho esperança de que teremos uma Guiné-Bissau diferente no próximo ano.

RO: Não existem muitas situações políticas como essa, onde um Prêmio Nobel da Paz dirige negociações para o fim do impasse político. Como é o que o sr. imagina esta solução, uma vez que estas negociações não são fáceis.

Ramos Horta em entrevista à Rádio ONU

RH: Não. Definitivamente. Realmente não o são. Os políticos da Guiné-Bissau, como em qualquer parte do mundo, gostam de poder, de privilégios e uma vez que você tem o poder político, você acha difícil ter que compartilhá-lo. As pessoas dizem uma coisa de manhã, outra à tarde e outra à noite. É difícil. Você tem que ser muito paciente e saber ouvir e não esperar nada garantido. Mas como o representante do Secretário-Geral, eu jamais trabalho sozinho. Meu parceiro número 1, e que tem a liderança no processo é a Cedeao. Os países da África Ocidental: Senegal, Cabo Verde, Gâmbia, Guiné-Conacri, Gana, Nigéria… e o presidente da Cedeao são os líderes legítimos da região. Eu trabalho com eles, e procuro a liderança deles. Mas também existe a União Africana, a organização-mãe. Eu trabalho com eles também. E aí vem a Cplp, que tem cinco países africanos.  E tem a União Europeia que tem uma relação única com a Guiné-Bissau e temos feito tudo para preservar esta relação. Eu estou impressionado e até emocionado como os europeus querem ficar ao lado da Guiné porque eles foram tão decepcionados, tantas vezes, nos últimos anos, que teriam motivo suficiente para bater a porta, e dizer que não querem saber mais da Guiné-Bissau. Mas os europeus têm sido bastante generoros e pacientes. Eu sempre sou bem recebido quando vou a Bruxelas, e aqui em Nova York. Eu já me reuni com todos os 27 embaixadores, com o comissário Durão Barroso, e fiquei muito impressionado. Apesar dos problemas que a Europa está atravesssando, eles ainda têm tempo, interesse e recursos para a Guiné-Bissau.

RO: Como está sendo tratado o problema do tráfico de drogas na Guiné-Bissau, uma vez que este é uma parte muito importante com relação à situação da Guiné.

RH: Realmente é um problema sério. É tão sério quanto a pesca ilegal na Guiné-Bissau ou o desmatamento ilegal das florestas do país. Não deve ser, portanto, visto como o único problema que a Guiné enfrenta. O tráfico de drogas que vem da América do Sul e usa a Guiné-Bissau como trânsito para a Europa é um problema sério. Os americanos (dos Estados Unidos) estão certos em intervir com força. Cada país com seus recursos e vontade política tenta defender suas sociedades sobre este problema insidioso das drogas. Quanto você vê centenas de milhares de americanos morrendo por causa da droga, quando você vê os carteis de drogas infiltrando instituições e criando instabilidade, seja nos Estados Unidos ou na Europa, você não pode culpar os americanos ou os europeus por agirem. Então, países em questão como a Guiné-Bissau são os que têm que levar em consideração que ao permitir ou serem indiferentes às gangues criminosas da Colômbia, da Bolívia, do Peru usarem seu território como um ponto de transição, mais cedo ou mais tarde, eles terão alguém - neste caso os americanos -, aterrissando no seu território e entrando em ação. Neste caso, é melhor que as autoridades mesmas da Guiné-Bissau tomem esta atitude. E que indivíduos na Guiné-Bissau, no Exército ou política, que estejam envolvidos, cessem todas as atividades e cooperem com as autoridades. Acabem com as drogas. Se eles estiveram envolvidos no passado, terminem com tudo completamente. Eu estou avisando a vocês: mais cedo ou mais tarde, os americanos vão capturar mais uma pessoa. Não os subestimem.  Se eles foram capazes de capturar a Al-Qaeda nas cavernas do Iêmen, no Afeganistão e no Paquistão. Pegar alguém na Guiné-Bissau ou em qualquer lugar da África Ocidental é piquenique para eles. Então, parem com o negócio das drogas que está afetando as pessoas da África Ocidental antes que mais uma pessoa acabe nas cadeias de Manhattan (por causa da droga).

RO: Agora, vamos falar do seu país, o Timor-Leste. Quando o sr. era presidente lá, o sr. desenvolveu um conceito importante de ajuda externa baseada na solidariedade e não, necessariamente, na riqueza do país ou em quanto dinheiro tem para gastar. Agora, Timor-Leste está levando uma agência de desenvolvimento para a Guiné-Bissau com o valor de US$ 2 milhões. Como é que essa agência vai funcionar na prática e a partir de quando?

RH: Bom, em primeiro lugar, a Agência de Desenvolvimento já foi autorizada pelo Conselho de Ministros timorense. O Parlamento também já alocou o dinheiro. Agora, estão sendo procurados dois ou três funcionários timorenses para liderar a agência. O primeiro-ministro Xanana Gusmão disse que não quer fazer como outras agências ricas de desenvolvimento que gastam muito dinheiro com elas mesmas. Ele disse que a nossa só terá duas ou três pessoas, que serão pagas por um orçamento diferente. Os custos operacionais serão cobertos por um outro fundo. Ou seja: os US$ 2milhões de ajuda serão gastos com a ajuda mesmo na Guiné. Eu creio que as coisas podem começar já em junho, julho. O escritório já foi alugado em Bissau. Nós trabalhamos rápido. Mas esta não é a primeira vez que nós fornecemos ajuda para outros países. Nos últimos cinco anos, o Timor-Leste doou pelo menos US$ 10 milhões para países que tiveram desastres naturais severos. Nós fomos um dos primeiros a doar US$ 500 mil para Cuba depois do ciclone, o mesmo se deu com Mianmar, doamos para o Brasil por causa das enchentes. Prestamos ajuda a Portugal devido às cheias em Madeira, até mesmo para a Austrália quando eles tiveram grandes enchentes no estado de Queensland. Nós fazemos isso com sinceridade. Sabemos que não é muito, mas o Timor-Leste já se beneficiou tanto da ajuda internacional, e agora que temos um pouco de dinheiro do petróleo e do gás, faremos aquilo que outros fizeram pela gente: ajudar. Nós continuamos sendo pobres, mas os pobres também devem demonstrar, e às vezes têm mais sensibilidade para ajudar que outros.

RO: Mas este dinheiro, desta vez também ajudará a sociedade civil, a mídia. Como será na prática?

RH: Bom, a decisão será feita pelo chefe da agência, eles deverão me consultar como o representante especial do Secretário-Geral da ONU. Mas, eu espero que nós possamos providenciar assistência à mídia da Guiné-Bissau. Eu me encontrei com jornalistas lá, eles têm dificuldades, os salários são miseráveis, as condições de trabalho também são ruins. Eles têm que ser apoiados. Espero que os americanos e a União Europeia também apoiem a mídia guineense. Eles merecem apoio político para se sentirem protegidos, mas além disso, eles precisam de transporte, equipamento, até dinheiro vivo para que possam comer, possam comprar roupa, porque os salários deles são miseráveis. Quando você tem um político que ganha milhares de dólares na Guiné-Bissau, como também no meu país, e aí você vê jornalistas, que prestam um serviço público, e mal podem comer. Então será uma prioridade para a agência de desenvolvimento do Timor-Leste ajudar a mídia guineense.

RO: Última pergunta. Como é que os países de língua portugesa podem ajudar ainda mais a Guiné-Bissau, como por exemplo, Brasil?

RH: Bom. Os outros países de língua portuguesa fizeram ainda mais que o Timor-Leste. Veja o apoio de Portugal, por exemplo. Eles têm sido muito pacientes e generosos.  Vamos analisar não só o apoio bilateral de Portugal, mas nos últimos anos, e até mesmo agora, Portugal suspendeu a ajuda direta ao governo, mas não os programas humanitários, que continuam. Portugal é também a porta da Guiné-Bissau para a Europa. Se Portugal decidir bloquear a ajuda para a Guiné na União Europeia, não haverá mais dinheiro da União Europeia para a Guiné-Bissau. No caso de Angola, houve uma situação de enorme generosidade e liderança, mas aí ocorreu o golpe e Angola saiu da Guiné. Os guineenses não demonstraram muita sabedoria em fazer uso da ajuda angolana. Se os políticos da Guiné-Bissau não querem usar a ajuda de Angola, essa mesma poderia ter sido bem-vinda no Timor-Leste. Angola queria construir uma rodovia, um novo porto, ajudar a modernizar o Exército, mas houve complicações políticas, e eu ainda estou intrigado como tudo isso aconteceu porque não foi uma decisão unilateral de Angola de ir à Guiné-Bissau. A mesma ocorreu através de um acordo com a Cplp. Foi assinado um acordo com militares da Guiné-Bissau. Não foi Angola que decidiu, de uma hora para, outra ir para a Guiné. Mas foi uma decisão de chefes de Estado da Cplp baseados num acordo escrito. E Angola é um país rico com uma experiência tremenda em modernizar as Forças Armadas. E Angola não tem nenhum outro interesse. Eles sabem os problemas imediatos deles que são internos e têm a ver com a estabilização da República Democrática do Congo. Eles se deslocaram para a Guiné-Bissau por causa da solidariedade como membro da Cplp. Se a Guiné-Bissau não quis usar esta ajuda, é uma perda para a Guiné.

RO: E o Brasil?

RH: Bom o Brasil tem sido mais que generoso. Eu sempre digo que os africanos podem contar com o Brasil porque é o único país da América Latina que tem uma profunda herança africana. Através de capítulos trágicos da História. Daquele extremo ponto da Guiné-Bissau, em Cacheu, onde centenas de milhares de africanos foram acorrentandos, colocados em navios de escravos e levados para o Brasil e ao resto da América. Então, esta ligação profunda existe. Você encontra no Brasil uma enorme simpatia por qualquer coisa da África. E a Guiné-Bissau, um dos menores e mais pobres países, pode inspirar ainda mais os brasileiros. Os brasileiros são incrivelmente generosos. São fáceis de lidar, informais, eu adoro os brasileiros. Eles sabem como gozar a vida, mas eles também sabem o que é o sofrimento por causa dos próprios desafios deles no passado. E hoje, o Brasil é um dos países mais ricos do planeta e pode ajudar. E eles estão preparados para ajudar. Eu conversei com vários líderes brasileiros. Então, os guineenses têm que ser inteligentes e irem frequentemente a Brasília, mas com um bom governo e com um plano, assim será fácil convencer os brasileiros sobre a ajuda.

RO: Algo mais a acrescentar?

RH: Obrigada. E Deus abençoe vocês.

*A entrevista transcrita, acima, foi traduzida do inglês para o português. Clique aqui para ouvir a entrevista concedida pelo presidente Ramos Horta, em português, à Rádio ONU.

JORNAL DA ONU - BRASIL (5 MIN), 25 DE JULHO DE 2014
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